quarta-feira, 7 de março de 2012

Clube do quê?

É bom cantar numa roda de samba onde só gente bamba pode versar. Pensando nesses versos do Fundo de Quintal, eu procuro uma boa batucada em qualquer lugar que eu vá, seja no Rio Grande do Sul, no Rio de Janeiro ou em Brasília. Em Santa Maria, que é saudosa dos pagodes do bar São Francisco, Café Brasil, Clube Santamariense, Associação dos Ferroviários e Clube Treze de Maio, onde já cantou até Jamelão, quis conferir um samba propagandeado com alarde nas redes sociais. Fui ao Muzeo, domingo à noite, ver um grupo com o pretensioso nome de Clube do Samba. Não curti e escrevo este texto para que você, amigo-leitor, se previna desse samba fake e não compartilhe a minha decepção


Malandro é malandro e mané é mané, pode crer que é! Como me disseram que o público de lá era de "alto nível" em relação aos locais que eu estava acostumado, caprichei na beca: vesti minha camiseta oficial da Casa de Shows Lapa 40 Graus, usada por Carlinhos de Jesus, e pus meu chapéu panamá com uma faixa especial para a ocasião. Ao abrir a porta do "salão", não vi sambistas e sim pessoas que queriam estar no Absinto Hall e não tinham carona para descer a Avenida Fernando Ferrari. Todos me olhavam como se eu fosse um ET ou um carioca (o que no mundinho deles deve ser a mesma coisa). O "público de alto nível" bebia Budweiser, mas não conhecia João Nogueira ou Nelson Cavaquinho e só cantava em coro quando os pretensiosos tocavam um pagode tema de novela. Quando rolava um Zeca Pagodinho, o "público de alto nível" dançava xote, vanerão, sertanejo, tudo menos samba de gafieira. Realmente, era muito diferente do que eu estava acostumado.


Carioca da Gema, Lapa, Rio de Janeiro: roda de samba de primeira ordem


Sambar é um privilégio, ninguém aprende samba no colégio, já dizia Noel Rosa. Em cima do palco, eu vi vários músicos experientes cantando sambas de boa qualidade, todos bem vestidos e com arranjos ensaiados. Mas não passava disso, era só a casca. A essência, que me faz gostar do samba acima de todos os outros ritmos, não estava lá. Eu não ouvia um coração cantando naquele microfone nem em qualquer instrumento que eles tocavam. Por mais que eles fizessem caras, bocas, erguessem as mãos para o céu, tirassem o chapéu, se ajoelhassem, nada daquilo era verdadeiro. Palavra de quem já se emocionou ao ver, a menos de dez metros de distância, Diogo Nogueira cantando os sucessos de seu pai.


Simplesmente tô dando esse alô porque sei que você não é de nada, né não Bezerra da Silva? Quem se intitula Clube do Samba não pode se apresentar com um pandeiro de acrílico da Contemporânea nem com um surdo tão agudo que não se destaca e mal se ouve do meio do salão. Isso é coisa de grupo de pagode colegial do sexto ano. O Brasil está cheio de luthiers que fabricam os melhores pandeiros do mundo, com madeiras nobres e pele de cabra, é só buscar na internet que os caras entregam em casa. E afinação de surdo para samba é uma coisa primária. Estes músicos experientes, que já passaram por outras bandas tocando outros ritmos, agora emprestam sua qualidade ao samba. Esta é a fase atual deles, mas será que, se não der certo, eles não fundam o Clube do Forró ou o Clube do Jazz? Se nada for como o planejado, talvez comprem perucas com trancinhas e criem o Clube do Reggae... Em último caso, podem tocar no Clube do Coroa.


Nelson Sargento e Partideiros do Cacique, Mangueira, Rio de Janeiro: bambas do samba


Como diria o mestre Paulinho da Viola, o samba é alegria falando coisa da gente, se você anda tristonho no samba fica contente. Se realmente existisse um "Clube do Samba", todos poderíamos admirar, mas poucos entrariam. A sede seria na Lapa, Rio de Janeiro, e haveria sócios por todo o Brasil. Do coração do Rio Grande do Sul, com certeza estariam lá Tio Miro da Cuíca, Mestre Bica, Renato e Ronaldo Félix, Fando, Chicão Cassales e outros que são fiéis ao ziriguidum e muito fizeram e fazem pelo samba na cidade. Mas não se engane amigo-leitor: se você quer uma festa legal, com bastante gente bonita, cerveja gelada e diversão, vá ao Clube do Samba, no Muzeo, aos domingos. Mas se, além disso, você quer samba de alta qualidade, tocado por sambistas de primeira e um público que aprecia de verdade o que está ouvindo, então dê meia-volta porque o caminho é outro. Procure na programação pelos grupos Samba e Cia e Quarteto do Samba ou vá a um ensaio de uma das escolas de samba da cidade que você vai gostar. Palavra de sambista.

2 comentários:

Patrícia Lemos disse...

Mais amo samba do que entendo. Bom ler sobre isso! Escreva mais. Grande beijo!

Tiago Medeiros disse...

Então tu é das minhas, como eu já sabia hehehe.

Aparece no Café Cristal ou Boteco do Rosário que tu vai gostar bastante. Bjos